Relato de viagem: minha primeira experiência com turismo comunitário

Por Natalia Teichmann

6 de junho de 2017

Em meados de 2016 eu fiz uma viagem para a Amazônia paraense que fez mudar completamente a maneira que penso sobre viagens e turismo. Compartilho com vocês um pouco da experiência ;)

Pôr do sol no rio Arapiuns - Foto por Marcelo Lopes

Em meados de 2016 eu e meu namorado resolvemos nos aventurar pelas bandas da Amazônia paraense. Nosso objetivo era entender se poderíamos organizar uma viagem de voluntariado para lá, já que recentemente eu tinha lido artigos sobre turismo em comunidades tradicionais e queria muito juntar as duas coisas.

Conseguimos fazer planos para visitar São Miguel, uma comunidade localizada na  Reserva Extrativista (RESEX) Tapajós-Arapiuns para bolar um modelo de parceria que beneficiasse e interessasse a comunidade. Quando finalmente partimos em direção ao Pará, os detalhes de tudo ainda eram bastante incertos. A grana era muito curta, mas a vontade de fazer acontecer enorme, então confiamos na bondade de novos amigos, feitos pela internet, para nos acomodar e dar as dicas para chegarmos ao nosso destino.

Chegando a Santarém, a experiência de pegar o barco que nos levaria à comunidade foi diferente de tudo que eu já fiz até então. Primeiro porque o porto era uma loucura, muita gente vendendo todo o tipo de coisa, melancia, pão, “chopão”, também conhecido como “din-din”, “geladinho”, “chupa-chupa” ou qualquer que seja o nome dado a essa delícia gelada na sua região. Os vendedores pulavam de um barco para o outro, já que eles se acomodavam lado a lado na areia do porto, a segunda coisa curiosa sobre o local, formando uma parede de barcos muito parecidos, o que tornava muito complicada a tarefa de encontrar a nossa embarcação, ou até mesmo chegar até ela. Tivemos que atravessar o terreno parcialmente alagado passando por cima de tábuas de madeira improvisada, nos equilibrando com as mochilas nas costas.

 

Quando finalmente encontramos o barco correto, descobri que até então eu não fazia a menor ideia do que era viajar com conforto. Todos os passageiros penduraram suas redes entre uma lateral e outra do barco e viajamos todos balançando suavemente com a ondulação do rio e uma brisa gostosa na cara. Dormi como uma pedra, fato absolutamente inédito!

Barcos de linha no porto de Santarém - Foto por Marcelo Lopes

Um tanto maravilhados com a viagem e a paisagem, descemos do barco direto em uma das praias que contornam São Miguel e partimos vila a dentro. Seguindo Vianey, nosso anfitrião, fomos pedindo licença ao atravessar os quintais das casas e até no meio delas, para chegar à propriedade do atual presidente da comunidade.​

São Miguel é bastante pequena, um lugar particularmente abençoada com praias lindas de areia fofa e branca e água clara e de temperatura amena onde vivem não mais do que 100 famílias. Por (muito curtos) três dias, vivemos com uma delas e tivemos o privilégio de curtir um pouco do modo de vida dos moradores locais. A casinha era simples, mas eles separaram para nós um quartinho ajeitado, de chão de cimento queimado com uma cama de casal. Energia elétrica, só entre 19h e 22h, funcionando a base de geradores movidos a combustível.  É um ótimo esquema se você quer se obrigar a dormir cedo.

A família dormia todas as noites na “maloca”, uma cabana de teto de palha, sem paredes, que eles construíram do lado de fora para aguentar o calor. Nos dias mais quentes eles levam a rede para o barco na beirada do rio e dormem por lá mesmo. Preocupações com segurança não são necessárias por lá.

São MIguel do Arapiuns - Foto por Marcelo Lopes

Logo de cara, encontramos a dona da casa, França, fazendo o que mais gosta, trançando a palha de Tucumã para produzir o artesanato que é tão comum na vila. Nos dois dias que se seguiram, acordávamos e lá estava ela, os dedos rápidos trançando a palha, sentada no chão da maloca. Ela tece desde menina a arte que a sua mãe lhe ensinou, mas fala com orgulho o quanto o acabamento tem melhorado desde que elas começaram a vender para turistas e cooperativas de artesanato, que depois vendem as peças para o mundo todo.

Não deu uma hora que estávamos em São Miguel e o pessoal foi chegando na casa para conhecer os “turistas”. Senti logo de cara aqueles ares de interior e simplicidade na acolhida tranquila que recebemos de todos.  Sentamos por ali, conversando despreocupados e sem pressa, descobrindo um pouco mais sobre o artesanato e os planos que eles têm para o turismo na comunidade. Dava pra ver o quanto o artesanato é importante, sendo a única fonte de recursos de muitas famílias em um lugar em que emprego é coisa raríssima.

 

Tivemos a sorte de acompanhar em primeira mão o processo de confecção das peças nos dias que estivemos lá. Três mulheres da vila nos levaram mata adentro para mostrar o processo de retirada da palha e coleta das folhas utilizadas no processo de tingimento das fibras. A foice gigantesca, usada para alcançar os ramos mais altos, impressiona, mas elas a manejam com familiaridade e puxam os galhos para o chão, segurando a palha esverdeada com as mãos enquanto os pés seguram o restante do galho, evitando os espinhos com desenvoltura. Mas os cortes nas mãos não mentem, é um trabalho duro e perigoso. A foice afiada, o galho que despenca do alto, os animais da mata amazônica, o sol forte, são todos ossos do ofício e mostram o quanto o trabalho feito por elas merece ser valorizado.

França trançando a palha de Tucumã para fazer o artesanato - Foto por Marcelo Lopes

Entramos no ritmo de vida deles, com muita paz, sonecas depois do almoço, catar caju dos muitos pés espalhados por lá e uma prosa gostosa sentados no chão da maloca. A maior parte do tempo aliás, estávamos de papo com alguém da comunidade, fossem nossos anfitriões e seus filhos, o pessoal na escola ou outras mulheres do grupo de artesãs.

Mas a melhor surpresa de todas foi descobrir as praias de água doce do Pará! Desde o momento que partimos de Santarém, as margens do Arapiuns eram uma visão formada por areia branca e fofa e águas claras de temperatura amena. E pode apostar que eu aproveitei muito! Nadamos até o céu ficar escuro e conseguirmos ver a Via-Láctea a olho nu pela primeira vez na vida. Nadamos e perdemos a noção da hora, fazendo nossa anfitriã sair atrás da gente com uma lanterna.

O único porém era tomar cuidado com as arraias no rio, que se escondem nos bancos de areia tão convidativos para um banho. Cada um por lá tinha uma história pra contar sobre ser ferroado por arraias, mas apesar da dor que pode causar, é um fato que não assusta ninguém, pois eles dão risada do fato e a criançada toda entra correndo no rio sem se importar com nada! Já nós, os meninos da cidade, criamos o hábito de entrar no rio arrastando os pés e usando um graveto para investigar a areia a frente. Felizmente não vi nenhuma arraia.

Quando por fim era a hora de se despedir para o nosso próximo destino, foi uma tristeza para nós e para eles, mas as lembranças daqueles dias eu guardo com um carinho especial e espero voltar a São Miguel para uma temporada mais longa de dias de paz.

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Quer um relato mais detalhado e também saber a continuação dessa história? Receba sua cópia do e-book “Rio acima – Um relato da minha primeira experiência com turismo comunitário”. É gratuito ;)

 

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