Viajar para se voluntariar faz de você o vilão ou o mocinho?

Por Natalia Teichmann

18 de junho de 2017

Saiba tudo sobre a polêmica do volunturismo e como evitar as armadilhas inesperadas que esse tipo de viagem pode trazer.

Pode ser que você pensado em passar algumas semanas em algum país da África e da Ásia se voluntariando ou, quem sabe, conheça alguém que já fez esse tipo de viagem, afinal, isso é cada vez mais comum entre os jovens brasileiros. Também conhecida como “volunturismo”, essa atividade já é bem difundida por países da Europa e pelos Estados Unidos e tem crescido a ritmo acelerado por aqui.

Para muitos, é a oportunidade desses jovens usarem seu histórico de privilégios para oferecer algo em retorno para a sociedade e ainda trazer na mala uma experiência com potencial de mudar a vida de quem parte pelo mundo na esperança de ajudar.

Parece excelente, certo? Mas será que você entende os dilemas éticos e morais envolvidos nesse tipo de experiência?

À primeira vista, pode parecer difícil criticar uma atitude como essa, mas cada vez mais vozes vêm se erguendo mundo afora para apontar o dedo para os males que uma viagem desse tipo pode causar. O assunto é polêmico, mas extremamente importante se você tem a intenção de se tornar um volunturista.

Os tópicos que eu apresento a seguir são os mais comumente levantados nessas discussões e contém um pouco das minhas reflexões sobre cada um.

1. A polêmica dos orfanatos

O que trouxe luz e revolta para as consequências negativas do turismo de voluntariado foi o a multiplicação repentina de orfanatos na Ásia e na África.

Aproveitando-se das boas intenções de viajantes buscando fazer o bem nessas regiões, pessoas más intencionadas criaram verdadeiras vitrines de sofrimento, mantendo instituições irregulares repletas de crianças malnutridas e malvestidas, que muitas vezes não são sequer órfãs, tudo para garantir a continuidade de doações dos turistas. Fazendo promessas, organizações convencem as famílias a lhes entregarem os pequenos, tornando a miséria e o sofrimento mercadorias para ganhos pessoais.

Crianças nessa situação recebem, pela primeira vez, carinho e atenção dos visitantes e tendem a ficar bastante apegadas a eles, apenas para os verem partir logo depois. Essa situação, mais que ajudar, aprofunda a carência emocional dos pequenos.

Por esses motivos, muitos agentes sérios trabalhando com o assunto no mundo optaram por deixar de oferecer pacotes em orfanatos. Mas o mal estava feito! Essa deturpação do conceito de viajar para se voluntariar vem arrastando na lama as intenções de pessoas com boa iniciativa e trazendo desconfiança para todo o setor.

2. Uma nova colonização

 

Todo mundo sabe que países que costumavam ser colônias mantêm muitas cicatrizes por conta da exploração desenfreada de seus recursos naturais e humanos, que levou a problemas sociais que afligem a sociedade até hoje. Agora, o que vem sendo levantado é que essa onda de jovens altruístas com intenção de ajudar pode acabar fazendo exatamente o contrário do pretendido, criando nova dependência desses países quanto à ajuda externa.

 

Este é um ponto delicado, pois envolve também a responsabilização das antigas metrópoles pelos danos que elas mesmas causaram. Parece razoável que jovens que reconhecem sua herança privilegiada, porém abusiva, sejam agora os agentes que procuram reparar um pouco do dano. Mas essa noção exige cautela.

 

Quem receber auxílio não pode ser tratado como um pobre coitado a quem o voluntário veio salvar, mas sim como seres humanos capazes e que podem progredir um pouco mais com o auxílio bem posicionado de outros. O fluxo constante de doações para organizações com credibilidade duvidosa gera dependência em algumas localidades, o que pode ter resultados catastróficos na mente dos habitantes locais, especialmente crianças, ou consequências sociais negativas caso essa ajuda se interrompa repentinamente.

 

Minha dica é: desconfie de organizações que vivem da renda trazida por voluntários. Essa regra tem exceções, é claro, mas é sempre bom que a organização tenha iniciativa para buscar outras formas de se manter, assim o voluntariado vai ser menos sobre finanças e mais sobre trabalho positivo!

 

Outro fator essencial é: o quão envolvida a agência ou organização anfitriã realmente está com a comunidade? Os moradores locais foram consultados de alguma forma sobre o projeto e seus benefícios? Esse é o momento de se tornar um stalker! Descubra tudo o que puder sobre o nível de participação da população local no projeto, garantindo que você não vai prover ajuda não desejada.

 

3. Eu, roubando empregos?

 

Outra crítica que se houve muito é que o volunturista evita que sejam criadas vagas de emprego para a população local. Isso não é nenhum fator leviano a ser considerado e, por isso mesmo, deve ser bem questionado por quem pretende viajar para se voluntariar.

Enquanto alguém que trabalhou em ONG no Brasil, posso dizer com segurança que, na maioria das organizações, o trabalho feito por voluntários é aquele para o qual não existem trabalhadores contratados o suficiente, pelo simples motivo de que não existe dinheiro o suficiente para se contratar toda a ajuda necessária. Nesse sentido, o voluntário, seja ele um morador da própria comunidade ou um estrangeiro, pode ser de grande ajuda para a continuidade das atividades.

Mas essa crítica faz muito mais sentido se pensarmos em alguém que deseja viajar para se voluntariar sem ter que pagar nada por isso, nem mesmo os custos de hospedagem e alimentação. Pode ser que isso faça sentido num primeiro momento, afinal, estou saindo do meu país para trabalhar de graça, o mínimo que podem fazer por mim é cobrir os custos de vida, certo?

Errado! Você se esquece que o voluntariado é o trabalho realizado sem contrapartida, para auxiliar uma causa. Quando você decide fazer voluntariado fora da sua cidade, o turismo passa a ser um fator integrante dessa viagem e por isso existem custos envolvidos. Esperar que a ONG arque com isso é dar um gasto extra para uma instituição muitas vezes sobrecarregada e, aí sim, quem sabe usurpar recursos que seriam mais bem empregados investindo-se em trabalhadores locais.

4. (In)Capacidade para ajudar

Sair do seu país para ajudar uma instituição do outro lado do mundo não é uma decisão simples e por isso mesmo, geralmente não é barata. Se a sua intenção é realmente ajudar, você precisa ter certeza de que o que você está fazendo vai ter algum impacto positivo.

Ouço sempre notícias de jovens bem intencionados mas pouquíssimo capacitados para colaborar de forma efetiva com as organizações e, por vezes, até atrapalhando! Pode ser que ele diga as coisas erradas para as crianças, ensine inglês de maneira confusa, construa um muro que depois precisa ser concertado. Gastar a maior grana para fazer isso não parece ser a melhor pedida para o seu dinheiro.

Por isso, ao se voluntariar, tenha em mente os trabalhos que você pode fazer com confiança e desenvoltura, por exemplo, algo relacionado à sua área de formação. Quando tiver decido o que vai fazer, se informe mais sobre o assunto, sobre a situação da ONG e da comunidade, pesquise a melhor abordagem para ensinar inglês para crianças etc.

Iniciativa e boa vontade costumam valer muito nesse ramo, mas principalmente se elas forem bem direcionadas. Se a ONG onde você quer trabalhar não tem utilidade para as suas habilidades, procure mais um pouco e tenha certeza de que você vai ajudar mais do que atrapalhar!

5. Tem certeza de que o seu dinheiro está sendo bem empregado?

A partir do momento que você decide sair da sua cidade ou país para se voluntariar, existem custos envolvidos: visto, passagem, acomodação, alimentação, transporte e, é claro, os passeios que você vai fazer nas horas vagas.

 

Para boa parte dos volunturistas, um outro gasto é com as agências intermediadoras, que planejam os detalhes da sua viagem e te conectam com a organização social. Para muitos, essas agências são aproveitadores que usurpam o dinheiro que deveria ir diretamente para os projetos. Vale dizer que em alguns casos isso é mesmo verdade, mas é um risco que pode ser facilmente evitado pelo viajante.

 

Agências honestas e bem estruturadas existem sim e muitas são construídas de maneira a maximizar o impacto social do ramo do turismo. Para identificar as bem intencionadas, pergunte como o valor do pacote vai ser utilizado, peça para estabelecer em contrato a quantia que vai ser direcionada para a ONG, assim você não vai ter nenhuma surpresa desagradável. Se a empresa se recusar, você já sabe que precisa procurar uma outra, que seja mais transparente.

Não espere, contudo, que a empresa não receba nada pelo serviço que está prestando, afinal, se trata de um negócio que precisa se sustentar. Se esse fator te incomoda tanto, você pode sempre fazer a viagem de maneira autônoma, mas não se esqueça de cobrir os custos da sua viagem!

6. No fim, o volunturismo tem alguma efetividade?

Como vimos, isso depende de muitos fatores, mas para mim a resposta pode sim ser positiva.

 

Para que a sua viagem tenha o impacto social que você deseja, preste muita atenção em todos os pontos que levantamos e seja um viajante consciente. Se informar nunca é uma coisa negativa, então leia muito, troque experiências e não desista de fazer a sua viagem para se voluntariar.

 

Mantenha em mente que a escolha de ir para outro país faz de você um turista e pode te proporcionar uma das melhores viagens da sua vida, mas também pode ter consequências inesperadas se você não se preparar de maneira adequada. Vilão ou mocinho, isso é apenas um rótulo, mais importante que isso são as consequências das nossas ações enquanto voluntários.

 

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